Aurismar Mazinho Monteiro

Uma pena meramente entusiástica.

Textos

Pedestre - o pedestre
Pedestre – o pedestre

De quando em vez me pego absorto em recordações da infância vivida na minha terra natal, na bela Natal... Lembro-me de um tio  meu (hoje, partido desta para melhor - que Deus o tenha, como costumam dizer) que, desde jovem, tinha o hábito de andar a pé, para qualquer lugar que fosse. Mesmo para os bairros mais distantes da cidade, empreendia seus percursos sempre a pé, dispensando os meios de transportes disponíveis, ainda que fossem gratuitos. Era, no sentido mais estrito da palavra, um verdadeiro pedestre. Meu tio sempre tinha disposição para caminhar e, o que era mais engraçado, principalmente quando o fazia cumprindo uma tarefa a pedido de alguém, como por exemplo, pagar contas em bancos, postar ou retirar correspondências nos correios, fazer pequenas compras no mercado, etc.
Devido a esse hábito pedestriano (louvado hábito, frise-se), recebeu, dos parentes, a carinhosa alcunha de Pedestre, sem a menor demonstração de contrariedade a tal pseudônimo, sendo assim chamado até os dias que antecederam sua partida (quando ainda um “enxuto” octogenário) e, esporadicamente, ainda o chamamos, quando em conversações familiares...
Pedestre era um homem educado, atencioso e bastante prestativo. Por falta de bons estudos, não lograra empregos fixos ou significantes que lhe permitissem uma remuneração razoável. Na maior parte de sua vida, viveu de favores em casa de parentes que o acolhiam com estima e solidariedade.
Dotado de bom senso de observação, mesmo sendo homem de pouca leitura, Pedestre compreendia rapidamente o que lhe diziam, em especial, as “instruções” emanadas de pessoas que solicitavam seus préstimos, os quais oferecia com muita satisfação. Hoje, presumo que essa sua receptividade diante dos “pedidos” que lhe eram dirigidos decorria do reconhecimento que tinha pelo acolhimento caloroso que os parentes e amigos então lhe proporcionavam, pois ele bem reconhecia que sempre vivera da boa vontade dos que o recebiam em suas casas.
Quando lhe davam “alguma missão”, as pessoas lhe forneciam dinheiro para custear os transportes, porém ele não o usava para tal. Guardava-o para outras necessidades, já que, além de gostar mesmo de caminhar, achava que chegava ao destino mais rápido do que os transportes. Parece incrível, mas, de fato, isso às vezes acontecia!
Naquela época – e já faz muito tempo, isso –, minha família possuía uma chácara numa cidade interiorana, na qual costumávamos passar fins de semanas e feriados. Lá, havia uns vizinhos que, conosco, organizavam eventos esportivos e outras festas pelos bairros da cidade. Certa feita, após um jogo de futebol realizado num bairro um pouco distante da nossa chácara, voltávamos a pé e, de repente, apareceu um amigo conduzindo uma caminhonete, indo em direção à nossa rua.

Vão para a chácara? – Perguntou-nos, parando o carro.

Convergindo o olhar para Pedestre, que caminhava super disposto, respondemos:

Sim, vamos!

Então, entrem e acomodem-se que os levarei – disse o amigo motorista.

Meio a contragosto, Pedestre aceitou a carona, entrou no carro, mas foi logo avisando:
Bem, eu vou com vocês nesse carro aí, mas irei em pé!

Em meio a gargalhadas de todos com aquela situação, o carro deu partida.
E de fato, durante toda a viagem, Pedestre não se sentou, de tanto que estava acostumado a andar a pé.
AURISMAR MAZINHO MONTEIRO
Enviado por AURISMAR MAZINHO MONTEIRO em 28/03/2011
Alterado em 20/05/2011
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